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Acerca da Cidadania

O homem é um animal social. Desenvolveu ao longo de milênios uma organização social sofisticada e complexa com suas leis e poderes. Apesar do gigantismo desse aparelho é interessante observa-lo num universo mais micro, como um condomínio. Temos o hábito de julgar que os governos têm o poder sobre a vida e a morte, que podem fazer dinheiro numa máquina, que têm o poder sobre tudo e todos. Quando trazemos essa análise para um ambiente mais próximo, fica mais fácil imaginar como funciona ou deveria funcionar essa estrutura.

Em primeiro lugar nessa comparação vem logo a figura do líder. Salvo raras exceções, ninguém quer a cadeira de síndico no condomínio, já no governo todos os cargos são disputadíssimos. Síndico ganha pouco, quando ganha, tem um orçamento apertado, tem que se meter em discussões internas, não tem poder sobre os demais moradores, ouve desaforos e ainda tem que trabalhar fora pra se sustentar. Já no governo, há privilégios, o salário não é grande coisa, mas as mordomias compensam, o orçamento é gigantesco, envolve muitos interesses, tem visibilidade, o poder é ilimitado, enfim, se tem tanta gente querendo, deve ter muitas compensações.

E quanto aos moradores, o povo em si? Bem a eles cabe escolher o síndico (desde que haja uma democracia) e pagar as taxas. Bem, as taxas. Tanto no condomínio quanto nos governos, as taxas ou impostos é que sustentam a estrutura. Assembléia geral pra discutir aumento de taxa é uma festa. Todo mundo fala, reclama que está caro, diz que não pode pagar, fala do cachorro da vizinha, reclama da infiltração no apartamento de cima, muda de assunto toda hora, uma verdadeira assembléia geral. No final, não tem jeito, apresentam-se as contas e tem-se que chegar a um acordo para equilibrar despesa e receita. Assim também deveria ser nos governos, só que estes desenvolveram mecanismos sofisticados de financiamento para não ter que diminuir as despesas. Para voltar à nossa comparação, imagine que o síndico tenha acesso a uma conta com cheque especial, podendo gastar além da receita e ficando a dívida mais os juros a serem pagos no futuro. O problema hoje estará resolvido, amanhã será outro dia. Não precisa ter bola de cristal para perceber onde isso foi desaguar.

Voltando à realidade do condomínio, já que não há cheque especial para isso, tem-se que equilibrar receita e despesa. Então, quanto menos despesas gerarmos, menos será necessário contribuir com a taxa condominial. Por essa lógica é que vamos entender o quão é importante a participação de cada um. Se não sujarmos as áreas comuns não haverá necessidade de um servente para mantê-las limpas. Isso é economia. Se usarmos mais racionalmente o elevador, menor o custo de manutenção e de energia. Se evitamos desperdício de água com goteiras, infiltrações ou mau uso, também estaremos diminuindo a conta conjunta. Se nada disso fazemos e ainda nos opomos ao aumento de taxa, no mínimo estaremos sendo incoerentes. É questão matemática e não de mágica, o síndico, presidente, prefeito ou governador não é mágico, não compete a ele fazer nascer dinheiro de uma cartola. Podemos acusar o mau uso quando esse houver, mas antes de qualquer acusação cabe-nos a reflexão sobre nossa participação.

E é exatamente sobre isso que desejo falar: cidadania, a capacidade de participar dos destinos da sua comunidade, como do seu condomínio. Como vimos não basta pagar taxas e escolher seus representantes, cidadania é uma conquista da democracia, é o seu poder de indivíduo se expressando na comunidade. Não precisa o dom da oratória, não precisa ser intelectual, não precisa de dinheiro, não é necessário estar bem apresentado, basta querer participar. São infinitas as formas de participação mas tudo começa com sua consciência de coletividade. É preciso pensar no interesse do grupo e não apenas no seu em particular. A evolução do homem tem-se intensificado em todas as áreas, no entanto, é na organização social que brotam os arranjos que possibilitarão os avanços nas demais áreas. Só sociedades desenvolvidas podem gerar evoluções tecnológicas e de conhecimento.

Há contradições nesse caminho. Por exemplo, todos alardeiam contra a violência, é uma causa que ninguém se opõe, até assassinos confessos se dizem indignados com essa violência toda. No entanto, há um enorme mercado paralelo de mercadorias roubadas, como de auto peças, e achamos ótimo pagar menos por elas, até que seu carro seja roubado. Aí a culpa é do governo pela onda de violência. Você não percebe que sua atitude ingênua de comprar peça de origem duvidosa esteja incentivando um mercado de roubo de veículos. A mesma comparação se faz com o usuário de droga. Indiretamente é o seu vício que incendeia esse mercado e põe fogo na violência. Muitos que se levantam contra a violência, que votaram a favor do desarmamento, não resistem a comprar um produto de origem duvidosa (contrabando ou roubo) só pela vantagem de pagar menos. É o seu interesse pessoal agredindo o coletivo e não tarda ele se volta contra você mesmo. Então, é preciso combater a violência na esfera do governo, sem dúvida, mas sua participação é fundamental, no mínimo para não incentiva-la, mesmo sem o saber.

Outra contradição diz respeito à sujeira da cidade. Nossa Belém está imunda, o prefeito não faz nada, as ruas estão esburacadas, etc. Mas o que estamos fazendo? Lançando latas e outros objetos do carro para as ruas, deixando entulho na porta de casa, varrendo nossa casa e jogando o lixo na calçada, varrendo a calçada e jogando o lixo na vala. Quantos de nós realmente contribuem para deixar a cidade limpa? Ora é função da prefeitura limpar a cidade, pago imposto para isso dirão muitos. Mas precisa sujar, só porque paga imposto tem o direito de sujar? Se é assim vamos viver entre os porcos e não reclamar.

Fala-se muito em responsabilidade social ultimamente. Sinceramente parece-me uma onda de marketing que vai passar mas deixará boas experiências para todos, ajudando a sedimentar o caminho da evolução social. No entanto, percebo que nosso nível de evolução anda tão primário que entendo que responsabilidade social hoje para nós deveria ser cuidar do básico: plantar valores que nos ajudem a evoluir, educar. Temos que mostrar às nossas crianças que elas não têm direito de sujar sua casa nem sua cidade, que podem pegar aquela embalagem de bombom e deixar no bolso até aparecer uma lata de lixo, que devem respeitar os indigentes que não foram felizes na vida como elas estão sendo, que precisam respeitar os colegas e mesmo os desconhecidos, que podem vencer na vida sem vencer as outras pessoas, que felicidade não é carregar vitórias sobre outros nem se encher de compras no supermercado. Que a vida, pode ser uma eterna felicidade, se soubermos passar por ela em plena harmonia com nossos pares e com a natureza. Enfim, creio que isso seja responsabilidade social, no momento.

Celso Eluan Lima

Diretor

Sol Informática


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