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Lições de Baianidade

Salvador, tarde ensolarada, trânsito caótico no Rio Vermelho, estou de carona trocando palavras com meu cunhado, aliás , mais ouvindo que falando, baiano adora falar, pois como dizem por lá, baiano não nasce, estréia. A vida na Bahia é um show!
Well, nada de excepcional na paisagem, mas uma manobra atrapalhada leva nosso carro a colidir levemente com outro. Nada de mais, no entanto fiquei surpreso com a reação do Camillo (isso mesmo com dois eles), acelerou e seguiu em frente. Aturdido reclamei:
Você bateu no cara, não vai parar?
Tá louco? Vou estacionar ali no supermercado, se parar no trânsito ainda vou ser multado.
Dito e feito, ambos pararam e civilizadamente acertaram as contas e se cumprimentaram na despedida. Depois de mais de 50 anos, a ficha caiu. Nosso procedimento padrão para qualquer acidente de trânsito é logo chamar a perícia para definir quem tem razão e cobrar os estragos. É o direito de se fazer justiça. Numa época em que havia mais carroças que veículos automotores essa lógica nasceu e se consolidou. Aguardar alguns minutos ou horas pela Perícia seria um sacrifício coerente em prol da justa causa de se determinar o culpado e este ressarcir a vítima. Tudo dentro da absoluta noção de direito.
Ocorre que os tempos são outros, as carroças quase desapareceram e as ruas são invadidas por milhares de novos carros por mês, contabilizando uma frota superior a 300 mil veículos em nossa capital, uma média aproximada de um por família. As ruas não se alargaram, afinal estamos numa época em que a silhueta esbelta é padrão estético e nem as ruas querem engordar. Inevitável, o trânsito virou transtorno público. Nem tem mais hora do rush, qualquer hora é caótica.
Então, nesse cenário dantesco, dois indivíduos param uma rua, um bairro ou a cidade inteira pra discutir e esperar a definição da Perícia para uma questão de alguns reais. Milhões de outros reais são desperdiçados em combustível, horas perdidas, compromissos desfeitos, além de quilos de antidepressivos para acalmar uma população estressada. Tudo para que a justiça seja feita na definição do culpado pelo arranhão no carro do outro. Justiça?
É tão evidente, mas parece que o torpor dos anos nos deixou anestesiados. Chamem a Perícia! É uma reação instintiva, um reflexo pavloviano. Mas, e os outros? O que todos os demais têm a ver com essa mesquinha disputa por alguns reais? São centenas, milhares de pessoas que têm seu dia atordoado por uma causa tão infame.
Há poucos meses estava voltando de Mosqueiro e na altura da Polícia Federal em Benevides o trânsito travou. Não era nenhuma volta de feriadão ou domingo de Julho, seria um dia normal. Depois de mais de duas horas chegamos próximos ao Hospital de Urgência e havia um ônibus e um carro parados aguardando serem periciados. O acidente era mínimo, nenhum dano físico apenas material e ainda assim muito pouco. Coisa de menos de R$ 300. A cidade parou para assistir essa contenda, esse Big Brother de mau gosto (perdoem o pleonasmo).
Depois fiquei sabendo que na maioria das grandes capitais já ocorre como em Salvador, perícia apenas em casos com vítimas. Acho que já passou da hora de acordarmos para essa realidade. Ficamos tão acostumados que outros julguem e decidam por nós que não percebemos o estrago que vimos causando. Acho melhor chamar um perito.

Celso Eluan
10.02.11

Celso Eluan Lima

Diretor

Sol Informática


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