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De Conversa em Conversa

Nos loucos anos 60 Desmond Morris publicou ‘O Macaco Nu”, uma análise zoológica do animal humano. Muito curiosas suas observações sobre este ser tão único. Num paralelo com outros primatas comparou o ato de catar piolhos dos chimpanzés como uma estratégia de aproximação e gentileza para gerar uma identidade de grupo. Nos ‘macacos nus’, com a evolução da linguagem, esse ato foi substituído pela ‘conversa catadora’ na sua definição. Essa conversa é aquela típica de elevador: “O dia está quente hoje não é?”, “Oi como vai, tudo bem?” e por aí afora.
Esse hábito tem se mostrado uma excelente ferramenta de aproximação, cumplicidade e até civilidade. Mesmo quando há antagonismos, do tipo futebolístico principalmente, não há rancores e cria-se uma ambiente de camaradagem:
- Esse teu Paysandu, hein, virou saco de pancadas.
- É, mas o teu Remo nem série tem, vai fazer exame de admissão esse ano de novo?
E assim a vida segue placidamente.
No entanto, há um tipo de ‘conversa catadora’ que me intriga. É aquela que ultrapassa o limite da cordialidade pra se tornar cúmplice. No afã de agradar o interlocutor, é comum concordarmos com seus pontos de vista sem nenhuma crítica ou análise mais detalhada. É quando nos tornamos juízes sem ouvir a outra parte.
- Você viu o que o Fulano fez comigo? Isso não é coisa de amigo.
- De fato cara isso é canalhice.
Coitado do Fulano, sem o constitucional direito de defesa foi atirado no poço dos canalhas. Esse é um recurso muito usado em política, a arte de unir e separar pessoas. Um palanque por si só já é um ardil que não comporta críticas, só aplausos e pode ser definido como o ápice dessa estratégia.
- O que eles estão fazendo é neoliberalismo!
- Isso só pode ser coisa dessa esquerda desmiolada!
Pronto, assim resumindo a claque entra em alvoroço e todos concordam em uníssono. E o que é neoliberalismo ou esquerda desmiolada?
- Ah, isso não importa, vai ver que você é do outro lado por estar questionando tanto.
Aquele ‘antagonismo catador’ do futebol descamba para uma ferrenha luta verborrágica, mas não de idéias. A crítica é vista como um ataque e os pelos se eriçam (mas o macaco não é nu?) em atitude de confronto. Daí pra frente, olhando novamente outros primatas, o que se ouvem são grunhidos e provocações.
No entanto, a capacidade de criticar, questionar pode se tornar inconveniente. Isso faz com que tenhamos esse comportamento de espécie, de tentar agradar. Basta olhar os comentários nas redes sociais. Você posta alguma coisa e os comentários que se seguem em geral são do tipo catador: nossa que lindo, parabéns, valeu, que legal, etc.
Só é assim porque é um código intrínseco dessa estratégia de aproximação e formação de rede. No entanto, isso não ajuda a melhorar, só mantém o status quo, o que não é pouco. Depois disso, atenção com o que você for comentar desse texto. Se forem elogios do tipo ‘catador’, cuidado porque pode ter que continuar lendo artigos toscos como este. Se for criticar e achar ruim, ARRGHHH, posso virar um orangotango.
Celso Eluan
22.05.11

Celso Eluan Lima

Diretor

Sol Informática


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