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Crônicas de uma certa guerra

Estou convencido: estamos em meio a uma guerra civil no país. A violência urbana assumiu tais proporções que pode ser percebida por qualquer um, de qualquer classe social em qualquer grande cidade. Não vou me estender muito sobre essa percepção, pois certamente quem me lê já teve alguma experiência ou relato de experiência traumática. Apenas acrescento a minha mais recente, citando o caso da filha de um grande amigo recentemente baleada na fuga de um assalto na região da Doca, em seu carro.
Os números ajudam no argumento. Dados de 2008 apontavam uma média de 46 mortes violentas durante o conflito no Iraque para cada 100 mil habitantes. No mesmo período, de acordo com a ONG Human Rights Watch, no Brasil estimou-se em 50 mil o número de homicídios. Isso equivale aproximadamente a 26 mortes para cada 100 mil habitantes.
Pior que os números é a clara percepção de insegurança. Também nem vou me estender, você já sente isso nas ruas, no seu carro, no ônibus ou mesmo na sua casa. Onde quero pontuar é nas causas. Não aceito mais os argumentos de sempre: má distribuição de renda, miséria, fome, corrupção, falta de investimentos em segurança, má vontade política e tantas outras ladainhas. Não que não seja verdade, o problema é que de tanto repeti-las sem a devida avaliação e mudança do cenário, acabam virando paisagem na janela: servem apenas de assunto, mas ninguém se importa mais com elas de tão corriqueiras.
Estou cada vez mais convencido que uma das principais razões, senão a principal, e ainda não devidamente explorada, é uma certa relativização das leis, algo como a relativização cultural que aceita sem culpas uma condenação à morte por adultério. Essa flexibilização das leis, e uma certa leniência moral, permite que a sociedade como um todo aceite pequenas transigências que vão se acumulando e criando a percepção de que tudo pode.
No futebol isso fica logo claro: quando os jogadores percebem que o árbitro está deixando o jogo correr solto, todos se sentem no direito de entrar mais pesado, a violência vai aumentando e o juiz não consegue mais segurar o jogo. Ou aplica a lei com os cartões amarelo e vermelho ou o jogo vira batalha campal.
A vida imita o jogo, ou damos o cartão amarelo e impomos o respeito às leis nas pequenas contravenções, ou todos vão achar que tudo pode e acaba o jogo. Essa política ficou patente na Nova Iorque dos anos 80 com o prefeito Rudolph Giuliani e sua “tolerância zero”. Não houve acréscimo de leis, apenas passou-se a cumprir as leis que já existiam.
Esse é outro problema tupiniquim. Você sabia que pode ser multado se não atravessar na faixa de segurança? Pois é, nossos legisladores têm o péssimo hábito de querer regulamentar tudo, nos mínimos detalhes e esquecem-se de avaliar como essa lei poderá ser implementada, cumprida e vigiada. Agora mesmo estão criando mais um monstrinho, a “Lei da Palmada”. Você caro leitor, poderá ser punido se vier a dar uma palmada no seu filho. O problema não é a punição em si, mas como controlar isso. Daí que ou teremos uma lei que não servirá pra nada ou teremos uma lei que poderá ser usada contra você pelos motivos mais escusos, já que qualquer um poderá lhe denunciar e abrir um processo. Ora, já há leis demais contra abusos e mal tratos, não importa se criança ou não, pra quê mais uma específica e tão invasiva no seio da família e na privacidade do cidadão?
Pois é, aí está o ovo da serpente, cultuamos um império de leis, adoramos ter milhões de leis e uma constituição que define até os juros que devem ser aplicados, mas não temos nenhum apego a seguir às leis. E, não estou falando de juízes, senadores ou governantes, estou falando de todos nós, que aceitamos corromper um guarda de trânsito, que bebemos antes de dirigir, que toleramos o filho viciado, que compramos DVDs piratas, que convivemos pacificamente com as pequenas contravenções do dia a dia e achamos que isso não causa nenhum problema. Quando colocamos isso no microscópio da ciência social podemos ver o vírus da violência sendo gestado.

Celso Eluan
21.08.10

Celso Eluan Lima

Diretor

Sol Informática


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